azul nunca houve
eu tenho algo a dizer porque meus ossos se encaixaram de um modo diferente em torno dos meses que já passaram. tenho algo a dizer porque assisti uma coreografia que desenhava o amor como quem descasca cebolas: as camadas e o encharcar dos olhos. no fundo, matilde campilho recitava “fevereiro”, uma das cinco mil explicações pro amor é mercúrio se dividindo pelos salões de todas as festas. hoje meu fevereiro seria março. o casal dançava no palco e eu não entendi bem se o choro sabia o porquê de nascer. existem lágrimas espalhadas nos olhos daqueles que frequentam os salões de todas as festas nas quais mercúrio se dividiu. vai ver é só invenção. existe uma lupa agora em meus olhos, de tamanho equivalente à miopia e à vontade de esquecimento. ontem sonhei com você e hoje fingi que a vida era outra. outra coisa. tudo é possível na cidade onde o horizonte é simplesmente uma extensão dos próprios braços (quando muito alongados). "fevereiro" é sobre crescer na coragem de viver junto e isso fez meu coração se enrrugar feito pele após um banho demorado, no qual repasso todos os argumentos praquela discussão de cinco anos atrás. achei que se você estivesse ao meu lado, bem ali na primeira fileira, à minha esquerda onde sentava uma criança com uma pelúcia entre as mãos… pensei que se você estivesse ali… não sei, pensei que... às vezes parece uma doença pra vida toda, mas a vida é sempre outra coisa, sempre diferente da vida que morreu ontem. às vezes penso que nunca mais vou suspender a cabeça pra fora do azul, mas a verdade é que azul nunca houve. mercúrio ainda não foi pro seu lugar
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